O dólar se encaminha para sua melhor semana em quatro meses, impulsionado por leituras econômicas dos EUA que reduziram expectativas de cortes de juros e pelo aumento de riscos geopolíticos na região do Golfo Pérsico. A combinação reforçou a atratividade da moeda como porto seguro em um momento de incerteza.
Movimento semanal e contexto imediato
O Bloomberg Dollar Spot Index avançou 0,9% nesta semana e caminha para o maior ganho desde outubro. O movimento interrompe um período em que a moeda vinha sob pressão, após 2025 ter registrado sua maior queda em oito anos. Nesta rodada, tanto a evolução dos dados econômicos dos Estados Unidos quanto fatores externos convergiram para elevar a demanda por dólar.
Risco no Golfo Pérsico e impacto nas moedas globais
O reforço contínuo das forças dos EUA no Golfo Pérsico aumentou a atratividade do dólar como destino de proteção, segundo a reportagem. Operadores reagiram à mobilização de tropas ao redor do Irã, e esse ambiente geopolítico limitou a procura por outros ativos considerados porto seguro. Na semana, o iene caiu 1,8%, para perto de 155,50 por dólar, enquanto o euro recuou 1%, a US$ 1,1750. Richard Cochinos, estrategista de câmbio da RBC Capital Markets, afirmou que “os mercados estão migrando para uma probabilidade maior de envolvimento entre EUA e Irã” e que a pressão altista sobre o petróleo afasta o euro e o iene desse papel de proteção, abrindo espaço para o dólar.
Mudança nas expectativas sobre a política monetária do Fed
Nas últimas semanas, o mercado vinha antecipando cortes de juros pelo Federal Reserve, em parte pela percepção de que outros grandes bancos centrais estavam mantendo juros estáveis ou sinalizando altas. Contudo, a ata da reunião mais recente do Fed mostrou que autoridades foram mais cautelosas do que o mercado esperava em relação à redução de juros. Vários membros sugeriram que o banco central pode precisar elevar os custos de empréstimos no futuro caso a inflação permaneça persistentemente elevada. Essa postura mais reservada do Fed, combinada com indicadores econômicos recentes, sustentou a valorização da moeda americana.
Dados econômicos e reajuste das apostas de mercado
Ao longo da semana, uma série de indicadores, incluindo uma forte queda nos pedidos de seguro-desemprego, enfraqueceu o argumento para cortes agressivos de juros nos EUA. Em consequência, o mercado reduziu a magnitude esperada de cortes: passou a precificar cerca de 58 pontos-base de redução ao longo deste ano, ante 63 pontos-base no fim da semana passada. Chris Turner, chefe de estratégia de câmbio do ING Bank NV, escreveu que “o foco agora deve sair do mercado de trabalho e voltar para os dados de inflação”, indicando que novas leituras de preços serão cruciais para ajustar expectativas.
Mercado de opções e posição de investidores
O mercado de opções também sinalizou mudança de tom: posições de curto prazo ficaram nas mais otimistas para o dólar desde novembro. Paralelamente, operadores especulativos haviam ampliado posições vendidas em dólar nos últimos meses, atingindo o maior nível de pessimismo desde junho, segundo dados da Commodity Futures Trading Commission (CFTC). O relatório mais recente da CFTC estava programado para divulgação na sexta-feira, oferecendo um ponto de confirmação sobre a extensão dessas apostas.
Riscos e visões divergentes entre gestores
Nem todos os gestores compartilham a visão de fortalecimento sustentado do dólar. Nathan Thooft, gestor sênior da Manulife Investment Management, disse que, embora “o Irã seja o principal tema no momento”, a tendência estrutural de longo prazo do dólar tende a ser de enfraquecimento, e que haverá apenas “períodos mais curtos em que o dólar apresentará força.” Jane Foley, chefe de estratégia de câmbio do Rabobank, observou que o tom mais positivo do dólar nesta semana “reflete uma perspectiva menos negativa para a economia americana” e destacou o potencial para coberturas de posições vendidas caso os dados continuem surpreendendo positivamente.
Fatores a vigiar na reta final da semana
Além do fluxo gerado pela geopolítica e pelas opções, o calendário de dados americanos tem papel central para a sustentação do movimento. Os Estados Unidos divulgaram o índice de gastos com consumo pessoal (PCE) de dezembro e o Produto Interno Bruto (PIB) do último trimestre de 2025 na sexta-feira — leituras que tendem a influenciar diretamente as apostas sobre política monetária e, por consequência, a direção do dólar no curto prazo.
A valorização do dólar nesta semana reflete uma confluência de dados domésticos mais firmes e elevação do risco geopolítico no Golfo; os próximos indicadores de inflação e PIB dos EUA, além dos dados da CFTC, serão decisivos para definir se o movimento se amplia ou se trata de uma correção temporária.
