Brasil segue como aposta número 1 na grande rotação para ações, dizem Bradesco BBI e Itaú BBA

Bradesco BBI e Itaú BBA identificam uma “great rotation” global que desloca capital de EUA/Big Tech para ações internacionais, com a América Latina — e o Brasil em particular — entre os maiores beneficiários. A mudança já se refletiu em ganhos: o MSCI LatAm sobe 18% no ano, e os bancos destacam espaço adicional para alta em 2026.

O que as instituições estão observando

Ambos os bancos apontam dois vetores semelhantes: uma rotação de exposição saindo de ações dos EUA e de tecnologia em direção a mercados internacionais, ações de valor, cíclicas e small caps; e, dentro desse movimento, a América Latina aparece como um dos destinos preferidos. O Bradesco BBI afirma que a região foi o melhor índice regional do mundo em 2025 e repete o posto em 2026, com o MSCI LatAm acumulando alta de 18% no ano. Mesmo após esse rali, o BBI estima ao menos 11% de upside adicional de forma conservadora. Para o Itaú BBA, a leitura incorpora análises da gestora Ashmore e do seu Head de Research, Gustavo Medeiros, que vê um ambiente “Goldilocks” para emergentes — crescimento sólido, pleno emprego e baixa inflação em vários países — favorecendo fluxos adicionais.

Valuation e prêmio de risco: por que emergentes e LatAm ainda atraem

O argumento central do Itaú BBA e da Ashmore é que, apesar da alta, os múltiplos seguem atrativos. O P/L médio de emergentes está perto de 13 vezes, contra 17 vezes do mundo ex‑EUA e 22 vezes do S&P500, segundo a nota. Do ponto de vista de prêmio de risco, o Earnings Yield Gap (EYG) em emergentes gira em 300–400 pontos‑base acima dos juros nominais, patamar bem superior ao observado nos EUA. Esses diferenciais sustentam a tese de que há espaço para realocação de capital para a região.

Por que o Brasil aparece como favorito

Tanto o Bradesco BBI quanto a Ashmore (citada pelo Itaú BBA) destacam o Brasil como um dos destinos mais relevantes da rotação. O BBI classifica o país como “top pick” na América Latina e elenca fatores concretos: valuation baixo — com desconto relevante frente ao histórico e pares emergentes — peso elevado de setores cíclicos na B3 que se beneficiam de crescimento e redução de juros, alta atratividade do carry cambial (FX carry) e um mercado suficientemente grande e líquido para absorber fluxos de fundos globais. A Ashmore acrescenta que o Brasil é um mercado altamente líquido e financeirizado, com espaço para mais cortes de juros do que atualmente precificado nas curvas, e que se encaixa no tema de “ativos reais” graças à combinação entre commodities e exposição à economia doméstica.

Fluxos: ainda tímidos frente a ciclos anteriores

Os bancos lembram que, embora haja entrada de recursos em emergentes, os fluxos globais ainda estão “meia marcha”. Em 2025, cerca de US$ 60 bilhões ingressaram em ações e dívida de emergentes, e outros US$ 65 bilhões tinham entrado até meados de fevereiro de 2026. Esses números ficam aquém do ciclo 2009–2013, quando entraram cerca de US$ 330 bilhões, e são relativamente modestos diante do tamanho atual das economias, segundo as instituições. O BBI chega a construir cenários de fluxo específico para o Brasil, no qual vê até 27% de upside para o investidor global na Bolsa brasileira em determinadas premissas.

Setores e nomes citados como oportunidades

Dentro da leitura do BBI há um destaque tático para small e mid caps brasileiras: o fluxo intenso para ETFs e grandes papéis deixou várias ações de menor capitalização negociando com desconto histórico em relação às blue chips. O banco aponta que isso cria uma “janela de oportunidade” especialmente em nomes domésticos cíclicos, citando Smart Fit (SMFT3), Ecorodovias (ECOR3) e 3Tentos (TTEN3) como exemplos destacados. De modo mais amplo, a Ashmore e o Itaú BBA identificam a América Latina como beneficiária do tema de gargalos ligados à expansão da inteligência artificial — maior demanda por energia, metais e infraestrutura — o que favorece países exportadores de commodities.

Mudança estrutural na região

O Bradesco BBI ressalta que a América Latina mudou substancialmente desde o ciclo anterior: a região é, em sua leitura, menos volátil, mais orientada ao crescimento e com gestão macro e corporativa geralmente melhor do que no período pré‑2008. Essa melhora estrutural é parte do argumento para que qualquer correção de mercado seja vista como oportunidade de compra por estrangeiros ainda underweight na região e por investidores locais.

Riscos que podem frear a tese

Os estrategistas reconhecem que o caminho não é linear. Entre os fatores de risco elencados estão: realização de lucros, sobretudo nos EUA após ralis expressivos e posicionamento possivelmente esticado; surpresas geopolíticas — embora a percepção recente seja de alguma redução do risco; e um cenário em que a própria IA, em vez de aumentar só a produtividade, gere pressão inflacionária caso os gargalos de energia, chips e infraestrutura se intensifiquem. Esses pontos podem afetar tanto a magnitude quanto a velocidade dos fluxos para a América Latina e o Brasil.

A rotação global para fora dos EUA e da tecnologia já tem beneficiado a América Latina — com o MSCI LatAm subindo 18% no ano — e, segundo Bradesco BBI e Itaú BBA (via Ashmore), há fundamentos que sustentam espaço adicional para avanço, especialmente no Brasil, onde valuation, composição setorial e liquidez atraem investidores. Ainda assim, a materialização desse potencial depende da continuidade dos fluxos, da evolução dos juros e de eventos geopolíticos ou de oferta que possam reverter o atual quadro de reprecificação.

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