O Bitcoin voltou a oscilar com força nesta segunda-feira (23), caindo mais de 5% na madrugada até US$ 64.270 e recuperando parte das perdas para cerca de US$ 66.300 no fim da manhã. O movimento ocorre em meio à retomada das incertezas sobre tarifas comerciais nos EUA e à escalada de tensões envolvendo o Irã, fatores que elevaram a aversão a risco no mercado.
O que aconteceu no mercado
A criptomoeda chegou a US$ 64.270 pouco depois das 21h de domingo e se recuperou para cerca de US$ 66.300 na manhã desta segunda, acompanhando a volatilidade vista nos futuros do S&P 500. O ouro subiu na abertura dos mercados e renovou máximas recentes, negociado acima de US$ 5.100, em um movimento típico de busca por proteção. No segmento de altcoins, Solana e SUI recuaram entre 7% e 8% antes de ensaiarem alguma reação nas horas seguintes.
Por que as tarifas reacenderam a volatilidade
A turbulência ganhou força após a Suprema Corte dos EUA barrar as chamadas “tarifas recíprocas” impostas no ano passado por Donald Trump. Horas depois, o presidente americano anunciou novas tarifas globais de até 15% por 150 dias, incluindo a elevação de uma tarifa de importação de 10% para 15% aplicada a todos os países. A sequência de decisões reintroduziu incerteza comercial, ampliando o sentimento de risco entre investidores e impactando mercados correlacionados, como Ações e criptomoedas.
Derivativos, movimentações em blockchain e liquidações
No mercado de derivativos, operadores passaram a buscar proteção via opções de venda (puts): desde sexta-feira houve aumento relevante em contratos em aberto na Deribit com preços de exercício em US$ 58 mil, US$ 60 mil e US$ 62 mil. Além disso, dados de blockchain apontaram que um investidor de grande porte movimentou volumes significativos de Bitcoin para uma exchange durante o fim de semana, alimentando especulações sobre possível venda e ampliando a volatilidade. Em ambiente de Liquidez reduzida, houve cerca de US$ 270 milhões em liquidações em altcoins, segundo a CoinGlass.
Leitura de analistas: suporte e cenários
Para Rony Szuster, Head de Research do Mercado Bitcoin, os dados reforçam um ambiente de aversão a risco. “Os volumes do dia mostram atividade relevante, mas no acumulado semanal permanece uma dinâmica predominante de vendas. Isso reforça a leitura de que o mercado atravessa um momento de medo elevado”, afirmou. Szuster destacou que o Bitcoin perdeu um suporte na região de US$ 66.700 e que, se a pressão persistir, o ativo pode buscar a faixa de US$ 61 mil, o menor patamar desde outubro de 2024. A analista técnica e trader Ana de Mattos vê risco de queda ainda mais profunda: diante do “medo extremo” no mercado, ela aponta que o Bitcoin pode testar regiões de liquidez em US$ 60 mil e US$ 53 mil, nível que seria o mais baixo desde fevereiro de 2024. Em um cenário de recuperação, as resistências citadas por ela estão em US$ 72 mil e US$ 75.500.
Fluxos em ETFs e movimentação de grandes detentores
Os fluxos em ETFs de Bitcoin seguem na mira dos investidores: na última semana, os fundos registraram a quinta semana consecutiva de saídas líquidas, acumulando cerca de US$ 315 milhões negativos, apesar de uma entrada pontual de US$ 88 milhões na sexta-feira. A leitura é de compras irregulares e reação a notícias, sem manutenção de demanda consistente. Enquanto isso, a Strategy — citada como a maior empresa listada com reservas em Bitcoin — anunciou a compra de mais 592 BTC na semana passada por US$ 39,8 milhões, com preço médio de US$ 67.286 por unidade. A companhia passou a deter 717.722 BTC, adquiridos por US$ 54,56 bilhões, a um preço médio de US$ 76.020 por moeda. Com o Bitcoin negociado na faixa de US$ 66 mil, a posição representa perda não realizada de cerca de US$ 10 mil por unidade, ou aproximadamente US$ 7 bilhões no total. As ações da empresa recuavam 2,33% às 10h40, acumulando queda de quase 55% em 12 meses.
Setores correlacionados e atenção a próximos gatilhos
Além das tarifas e da dinâmica específica de criptomoedas, investidores monitoram a temporada de balanços — destaque para os resultados da Nvidia programados para a próxima quarta-feira — e a evolução do preço do petróleo diante do risco de escalada militar no Oriente Médio. Esses fatores podem reforçar a volatilidade global e influenciar o apetite por ativos de risco, incluindo o Bitcoin.
O mercado de Bitcoin opera num ambiente de maior aversão a risco, com proteção buscada em opções, vendas de fundos e movimentações de grandes investidores; a combinação de incerteza comercial nos EUA e tensão geopolítica mantém em aberto o cenário para novos testes de suporte, enquanto participantes acompanham balanços corporativos e a evolução do petróleo.
