Após reunião de um dia com a administração da Totvs, o BTG Pactual disse ver a inteligência artificial mais como oportunidade do que risco estrutural. O banco elevou a tese de compra para TOTS3, apontando potencial de alta acima de 40% e um mercado endereçável que pode ser até 20 vezes maior.
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O que motivou o relatório do BTG
Os analistas do BTG Pactual produziram o relatório após um dia inteiro de reuniões com a administração da Totvs, realizado na terça-feira (17). Segundo o banco, o tema IA dominou as conversas a ponto de assuntos tradicionalmente centrais — como o fechamento da aquisição da Linx — terem sido tratados quase como secundários. A percepção do BTG é que o mercado exagera o risco da IA para empresas de software e subestima a oportunidade de monetização.
A tese central: IA amplia, não reduz, o market‑share monetizável
O BTG conclui que a inteligência artificial não é uma ameaça estrutural para a Totvs, desde que a companhia não se torne “complacente ou incompetente”, expressão citada pela administração. Em vez de comprimir o chamado value pool, a casa acredita que a IA pode ampliar o mercado endereçável da Totvs. O relatório aponta que agentes de IA podem abrir acesso a um mercado operacional múltiplas vezes maior — até 20 vezes o tamanho atual, segundo o banco — reforçando a tese de que IA será uma nova camada de monetização.
Resultados e valuation que justificam o otimismo
A Totvs terminou 2025 com alta de aproximadamente 60% nas ações. O BTG atribui metade dessa valorização ao crescimento do lucro e revisões positivas de estimativas, e a outra metade à expansão de múltiplos. No início de 2025, a ação negociava a cerca de 18 vezes o lucro projetado para 12 meses, com EPS estimado em R$ 1,43; ao final do ano, o EPS projetado subiu para R$ 1,82 e o múltiplo alcançou 23 vezes.
O relatório também traz projeções operacionais para 2026: receita projetada em R$ 7,2 bilhões (ante R$ 3,9 bilhões em 2022); Ebitda estimado em R$ 1,9 bilhão; margem Ebitda em 26,2% em 2026, contra 23,4% em 2022; e ROIC subindo de 15,8% para 31,4% no mesmo intervalo. Esses números sustentam, segundo o BTG, a ideia de crescimento consistente e uma base operacional capaz de capturar a expansão trazida pela IA.
Como a IA já está mexendo nas contas da Totvs
A administração reconheceu que receitas diretamente ligadas a agentes (agents) ainda levarão tempo para ganhar materialidade. O impacto imediato vem, diz o BTG, dos chamados “AI enablers”: serviços e produtos necessários para que clientes implementem IA de forma eficaz — migração para o cloud da Totvs, atualizações de aplicações, organização de arquitetura de dados e APIs. Essa frente representa hoje 17% da divisão de Management e cresce 37% ano contra ano, quase o dobro da expansão da própria divisão, mostrando um ponto de alavancagem financeira já mensurável.
Perímetro de monetização: o paralelo com o cloud
O relatório traça um paralelo com a transição para computação em nuvem. Há uma década a Totvs vendia software deixando infraestrutura, servidores e segurança sob responsabilidade do cliente; com o avanço do cloud, passou a gerenciar o ambiente e a cobrar por isso, ampliando receita e margens. O BTG vê a IA seguindo caminho similar: em vez de reduzir o valor capturado por fornecedores de software, agentes de IA e habilitadores tendem a expandir o escopo de monetização, adicionando camadas como analytics, automação de processos e serviços gerenciados.
Reação do mercado e contexto externo
Apesar do desempenho forte em 2025, as ações da TOTS3 sofreram correção no início de 2026 — com recuo de 13% apenas em fevereiro até o pregão de quarta-feira (18). O BTG interpreta essa correção como reflexo de movimentos globais no setor de tecnologia, não como sinal de deterioração estrutural da Totvs. Como sinal dessa fraqueza setorial, o relatório cita o IGV, ETF listado na Nasdaq que replica empresas globais de software, que acumulava queda de 23% em 2026.
O que o BTG recomenda e por quê
Com base nas reuniões e nos números operacionais, o BTG reforça a tese de compra para TOTS3, apontando potencial de alta superior a 40%. O argumento combina performance recente, expansão de margens e a hipótese de que a IA ampliará o perímetro de monetização da empresa — especialmente via AI enablers e serviços em nuvem.
Implicações práticas para investidores
Para investidores, o relatório do BTG sugere olhar além da narrativa de risco tecnológico e avaliar: (1) a qualidade do crescimento de receita e margem da Totvs; (2) a velocidade de adoção dos AI enablers e sua tradução em receita recorrente; e (3) a sensibilidade do papel a movimentos globais do setor de tecnologia. O banco aponta uma oportunidade de valorização suportada por fundamentos, mas isso se baseia na execução da gestão e na continuidade das tendências operacionais citadas.
O BTG Pactual saiu das reuniões com a Totvs convencido de que a IA deve ampliar o mercado da companhia, não reduzir seu valor. A casa manteve a recomendação de compra para TOTS3, com potencial de alta acima de 40%, apoiada em números operacionais robustos e na expansão de receitas relacionadas a cloud e habilitadores de IA.
