Mark Zuckerberg depôs pela primeira vez em tribunal sobre o impacto do Instagram na saúde mental de jovens, negando que a empresa tenha como alvo crianças menores de 13 anos. Seu depoimento ocorreu em um processo em Los Angeles no qual uma mulher acusa Meta e Google de lucrar viciando crianças em redes sociais.
O que ocorreu no tribunal
Na quarta-feira, em Los Angeles, o presidente-executivo da Meta Platforms, Mark Zuckerberg, testemunhou em um julgamento que reúne reivindicações sobre vício em redes sociais entre jovens. A autora do processo — uma mulher da Califórnia que diz ter começado a usar Instagram e YouTube na infância — alega que as empresas buscaram lucrar viciando crianças e que os aplicativos contribuíram para sua depressão e pensamentos suicidas. Meta e Google negaram as acusações e destacaram medidas adotadas para proteger usuários. Durante o depoimento, o advogado Mark Lanier pressionou Zuckerberg sobre declarações anteriores ao Congresso e apresentou documentos internos da Meta que, segundo a acusação, mostram foco em aumentar o uso entre pré-adolescentes e adolescentes.
Provas internas expostas ao júri
O advogado da autora mostrou emails e apresentações internas datados de 2014, 2015 e 2018. Uma apresentação do Instagram de 2018 continha a frase: "Se quisermos ter grande sucesso com os adolescentes, precisamos conquistá-los na pré-adolescência". Lanier também exibiu emails de 2014 e 2015 nos quais Zuckerberg discutia metas para aumentar o tempo gasto no aplicativo. Um documento de 2022 listado em juízo apresentava "marcos" que incluíam o aumento gradual do tempo diário médio no Instagram de 40 minutos em 2023 para 46 minutos em 2026. Esses materiais foram usados pela acusação para sustentar a tese de que a empresa tinha conhecimento de e buscava ampliar o engajamento entre usuários mais jovens.
Como Zuckerberg respondeu
Zuckerberg rebateu que os documentos foram deturpados e explicou que a Meta teve "diferentes conversas ao longo do tempo para tentar construir diferentes versões de serviços que as crianças possam usar com segurança". Ele afirmou que a empresa chegou a discutir a criação de uma versão do Instagram para menores de 13 anos, mas que esse produto não foi concretizado. Ao ser confrontado com sua declaração ao Congresso em 2024 de que menores de 13 anos não são permitidos, Zuckerberg repetiu que a empresa não permite crianças abaixo dessa idade e disse: "Se você está tentando dizer que meu depoimento não foi preciso, discordo veementemente". Sobre metas de tempo de uso, ele disse que a companhia já teve objetivos relacionados ao tempo gasto, mas que a abordagem mudou, e caracterizou os "marcos" de 2022 não como "metas", mas como uma "verificação" para a alta administração. Zuckerberg também afirmou que adolescentes no Instagram representam menos de 1% da receita e defendeu que a empresa vincula metas de produto a proporcionar boa experiência aos usuários.
Pontos levantados pela defesa e por executivos
Em defesa perante o júri, os advogados da Meta argumentaram que os problemas de saúde mental da autora têm origem em uma infância conturbada, citando registros de saúde apresentados no processo. A empresa e o Google ressaltaram o trabalho para adicionar recursos de segurança. Nick Clegg, então vice-presidente de assuntos globais da Meta, escreveu em um email: "temos limites de idade que não são aplicados (ou são inexequíveis?)", comentário apresentado em juízo que aponta preocupação interna sobre a eficácia das políticas de idade. Zuckerberg, por sua vez, afirmou que é difícil para desenvolvedores verificarem a idade dos usuários e sugeriu que essa responsabilidade cabe aos fabricantes de dispositivos móveis.
Contexto maior: uma onda de processos e reações regulatórias
O caso de Los Angeles faz parte de uma série de ações judiciais nos EUA contra Meta, Google (YouTube), Snap e TikTok, com famílias, distritos escolares e Estados alegando que plataformas digitais contribuíram para uma crise de saúde mental entre jovens. Snap e TikTok chegaram a um acordo com a autora antes do início do julgamento. Reportagens investigativas ao longo dos anos trouxeram à tona estudos e documentos internos da Meta que indicaram conhecimento de potenciais danos, incluindo descobertas sobre o impacto do Instagram no sentimento corporal de adolescentes e maior exposição a conteúdo relacionado a transtornos alimentares. Internacionalmente, alguns países e estados têm adotado medidas: a Austrália proibiu o acesso a plataformas de mídia social para usuários menores de 16 anos, e a Flórida aprovou restrição para menores de 14 anos — medidas que estão sendo contestadas judicialmente por associações do setor.
Relevância jurídica do veredicto
Experts e advogados envolvidos veem o processo como um teste para reivindicações semelhantes em litígios em andamento contra grandes plataformas. Um veredicto desfavorável às empresas poderia afetar a defesa jurídica tradicional do setor, que por anos se apoiou em proteções legais sobre responsabilidade por conteúdo. Os processos agora se concentram em como produtos foram projetados e operados. Do lado das famílias, advogados e parentes acompanham o julgamento com expectativa de que uma condenação leve a mudanças práticas no setor. Matthew Bergman, que representa pais em outros casos relacionados a mortes atribuídas a uso de redes sociais, disse a repórteres que, com a realização do depoimento de Zuckerberg, "sabemos que, simplesmente por termos alcançado esse marco, a justiça foi feita".
O depoimento de Zuckerberg colocou sob escrutínio público e judicial documentos internos que, segundo a acusação, mostram foco em aumentar o engajamento entre pré-adolescentes e adolescentes. A Meta nega culpa e sustenta que vem adotando medidas de segurança; o julgamento será observado como possível precedente para outros casos e para o debate regulatório sobre proteção de menores online.
