Investigação interna contratada pelo Banco de Brasília (BRB) encontrou indícios de que o ex-presidente Paulo Henrique Costa coordenou uma triangulação para viabilizar a entrada de fundos ligados ao ecossistema do Banco Master como acionistas da estatal. A defesa de Costa nega irregularidade; o relatório foi entregue ao Banco Central, à Polícia Federal e ao STF.
Resumo da apuração
O BRB contratou o escritório Machado Meyer Advogados, com apoio técnico da consultoria Kroll, para auditar o processo de aumento de capital da instituição. O relatório aponta indícios de que Costa teria organizado uma operação em que dois acionistas pessoas físicas subscreveram ações em uma rodada privada de 2024 e, imediatamente, repassaram esses papéis a fundos ligados ao Master — entre eles Verbier, Borneo e Delta — que teriam ficado com 98,6% das ações envolvidas nesse primeiro movimento. As duas operações de aumento de capital realizadas em 2024 somaram R$ 1 bilhão, segundo a auditoria.
O que a auditoria diz sobre a sequência de operações
Segundo o documento obtido pela reportagem, os fundos que acabaram compondo o quadro societário do BRB participaram também da segunda rodada de capital depois de já estarem formalmente acionistas, o que, na avaliação dos auditores, “reforça a tese de que a base de investidores relevantes já estava previamente definida, dispensando esforço de mercado compatível com a magnitude da operação”. A investigação menciona ainda movimentações com outros fundos que teriam exibido indícios de “circularidade” e dado origem à maioria dos demais acionistas de interesse, incluindo nomes como Daniel Vorcaro, João Mansur e Maurício Quadrado.
Exemplos de inconsistências apontadas
A equipe de auditoria registrou supostas inconsistências entre a capacidade econômico-financeira declarada por alguns investidores e as posições acionárias efetivamente assumidas. Entre os casos citados estão: um procurador com renda de R$ 35 mil e patrimônio declarado de R$ 6 milhões que teria adquirido mais de R$ 90 milhões em ações do BRB, com origem dos recursos atribuída a um empréstimo da Quista; e o advogado Daniel Monteiro, que, conforme o relatório, adquiriu mais de R$ 80 milhões em ações com recursos de um empréstimo da Cartos — empresa que originou parte das carteiras de crédito vendidas ao BRB pelo Master — e repassou essas ações aos fundos Borneo e Delta em 2025.
Defesas e explicações apresentadas
A defesa de Paulo Henrique Costa afirma que sua atuação “sempre se deu de forma institucional, dentro dos estritos limites da legalidade, da boa prática bancária e das normas de governança aplicáveis ao sistema financeiro nacional”, ressaltando que os aumentos de capital teriam sido estruturados pelas áreas técnicas, submetidos aos órgãos internos de governança e homologados pelo Banco Central. A assessoria de Daniel Monteiro declarou que sua compra ocorreu no mercado secundário em abril de 2025, com conversão em ações apenas após homologação pelo Banco Central, e que o patrimônio líquido do advogado à época era condizente com o investimento.
Ligação com a negociação do Master e papel do Banco Central
A auditoria observa que os movimentos ocorreram no mesmo período em que o BRB negociava a aquisição e a substituição de carteiras de crédito com o Banco Master e que, posteriormente, o BRB tentou comprar o próprio Master — operação que foi vetada pelo Banco Central. Autoridades avaliam se o aumento de capital teria sido usado para inflar a capacidade do banco público com o objetivo de viabilizar aquisições de carteiras e a tentativa de compra da instituição, já que o capital é elemento considerado pelo BC no exame de operações de aquisição.
Documentos, prazos e comunicação ao Banco Central
O relatório destaca comunicações do BRB ao Banco Central em janeiro de 2025 informando que, caso o aumento de capital fosse homologado, o Verbier passaria a ser um “participante qualificado”. O BC homologou as duas operações. Em 23 de abril de 2025, o BRB comunicou ao BC que tivera ciência, por meio do Master, dos beneficiários finais dos fundos; porém parte dessas informações só apareceu nos formulários de referência do banco entre o fim de 2025 e o início de 2026. A auditoria também afirma ter ouvido mais de 25 pessoas e coletado diálogos de chats internos e e-mails.
Conclusões parciais e encaminhamentos
O material levantado pela auditoria qualifica a operação, no trecho obtido pela reportagem, como potencialmente organizada por Costa em uma “operação triangulada e com elementos suspeitos de simulação”. Ainda assim, o documento ressalta o caráter preliminar da apuração e afirma que não constitui imputação de ilicitude. O relatório foi entregue ao Banco Central, à Polícia Federal e ao Supremo Tribunal Federal; as autoridades têm prosseguido com as apurações.
Em resposta às suspeitas, Costa tem afirmado a interlocutores que agiu para reforçar a capacidade de capital do BRB conforme planejamento estratégico e que a indicação de fundos teria partido de instituições financeiras envolvidas nas operações. A apuração segue em andamento junto a órgãos reguladores e autoridades judiciais.
